A alguns dias abordamos o tema venda antecipada da soja, trazendo uma entrevista sobre o assunto com o Gerente Comercial da Cotrimaio, Mauro Makoski do Rosario.
Como o assunto ainda não é muito dominado pelos produtores, hoje traremos uma entrevista exclusiva com Murilo Damé Paschoal, consultor da empresa Safras e Cifras, de Pelotas – RS, empresa especializada em assessoria agropecuária. Confira a entrevista:
Vanderlei - Os produtores de grãos, principalmente soja, recorrem a venda antecipada. Como é a negociação das empresas compradoras com o produtor?
Murilo - Nos últimos anos, temos visto que é cada vez maior a participação das vendas antecipadas na comercialização dos grãos pelos produtores.
Antes mesmo do plantio das Lavouras, temos observado os produtores aproveitar momentos de pico nas cotações dos grãos para formalizar os contratos de venda para entrega dos grãos e recebimento do dinheiro na época da colheita.
Além desta venda antecipada para recebimento em dinheiro, em alguns casos temos observado também operações de hedge onde o produtor recebe insumos na época do plantio e entrega a soja na época da colheita. Nesta operação, que é uma forma de financiamento da produção, normalmente existe um custo embutido nos insumos que em alguns casos pode ser alto.
Vanderlei - Qual o percentual, estimativa da safra que o produtor pode negociar?
Murilo - Sem dúvida o produtor não pode dispor totalmente da sua produção para vender antecipadamente. Então, normalmente se trabalha com um volume de grãos que se tenha certeza de colheita, mesmo com intempéries climáticas.
Não existe um percentual fixo definido, até porque os riscos envolvidos nas lavouras variam bastante de uma região para outra e também de uma cultura para outra. De qualquer forma, é muito importante analisar o histórico de produtividade das áreas para estabelecer a quantidade a ser vendida de forma antecipada. Devemos considerar duas questões principais para estabelecer a quantidade a ser vendida, a primeira são os riscos envolvidos na produção e a segunda as variações de custos de produção e de preço. Portanto, devemos ponderar as questões climáticas com as questões econômicas para estabelecer esta quantidade.
Vanderlei - Quais os principais motivos que levam o produtor a negociar a sua produção antes mesmo do plantio?
Murilo - A produção agrícola possui particularidades que a diferenciam completamente dos demais setores da economia, principalmente ligadas aos riscos envolvidos nas atividades, como: clima, pragas, doenças, preços de comercialização, custos de insumos, entre outros. Estes fatores influenciam sobremaneira a rentabilidade das atividades agrícolas, portanto a busca por um melhor preço médio de venda, para garantir uma margem mínima em relação aos custos de produção é uma grande motivação para as vendas antecipadas.
Então, esta venda antecipada se caracteriza como uma forma de proteção dos preços da safra e de busca por maiores margens. Resumidamente o que se busca é a mitigação do risco de preços e, por consequência, o aumento nos resultados.
Dividindo parte da produção para ser vendida antecipadamente e parte para ser vendida após a colheita, o produtor tem condições de fechar uma média de preço satisfatória, para tanto é importante o conhecimento dos custos de produção e do histórico de produtividade das áreas.
Temos ainda casos de produtores que utilizam a venda antecipada como forma de sobrevivência na atividade. Diante da falta de recursos para realizar a próxima lavoura, o produtor lança mão da venda antecipada para recebimento em dinheiro ou insumos a serem utilizados na próxima safra. Então, neste caso temos um mecanismo de financiamento da produção.
Vanderlei - Quais as principais vantagens dessa modalidade de venda?
Murilo - Fracionando a venda, os produtores têm condições de manter parte do estoque colhido em mãos para comercializar em um melhor momento. Assim, com parte da safra com preço garantido, a comercialização do restante da safra é facilitada e aumentam as chances de se obter um bom preço médio.
Então, com os custos de produção conhecidos, uma boa parte destes custos já fica garantida com a venda antecipada. Além disso, o produtor se protege de eventuais quedas de preço na época da colheita.
Vanderlei - Há alguma desvantagem em fazer uso da venda antecipada?
Murilo - No caso de venda antecipada para recebimento na época da safra, os problemas principais são os riscos climáticos que podem definir uma frustração de safra, o que determinaria a impossibilidade de cumprimento da entrega dos grãos, além da possibilidade de uma elevação nos preços dos grãos ou de aumento nos custos da lavoura, caso estes ainda não estejam definidos na época da venda.
No caso de troca por insumos, é muito importante avaliar o valor dos insumos e do grão a ser entregue, pois em alguns casos pode haver um alto custo financeiro nesta transação, pois o pagamento pelo grão também está sendo feito de forma antecipada neste tipo de negociação.
Portanto, nós temos visto com bons olhos esta estratégia de comercialização antecipada, mas há de se estudar com critérios o momento certo de efetivar esta venda, bem como a quantidade certa a ser vendida, pois sem dúvida existem riscos.
Vanderlei – Qual a estimativa de porcentagem de negociações, do volume total de soja previsto a ser colhido no estado?
Murilo - Hoje já existe uma estimativa de números entre 15% a 20% de venda antecipada do volume total de soja previsto no RS.
Vanderlei – Algum recado aos produtores sobre a venda antecipada? Afinal, é lucrativo ou não para o produtor?
Murilo - Acredito que a mensagem principal é que para os produtores capitalizados esta é uma boa ferramenta para reduzir o risco de preços.
Neste mercado globalizado, está cada vez mais difícil fazer uma análise segura sobre o comportamento do mercado. Então, a partir do conhecimento dos custos de produção e da fixação de um preço de venda com uma boa margem sobre este custo, a venda antecipada é uma boa ferramenta a disposição do produtor.
De qualquer forma, há de se observar algumas questões fundamentais nesta negociação:
- respeitar uma quantidade máxima a ser vendida, que deverá ser cumprida na época da colheita, independente dos problemas ocorridos na lavoura;
- escolher o momento certo de efetivar a venda, principalmente com relação aos custos de produção, que já devem estar em grande parte definidos quando a venda for realizada;
- existem ainda riscos de grande aumento no preço dos grãos e/ou riscos de uma grande mudança na economia.
Portanto, devemos ter em mente uma estratégia simples, mas importante, que é não deixar todos os ovos na mesma cesta.
Matéria publicada no Jornal Informativo Noroeste. Reprodução somente com autorização

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